"Sentia-me uma SALVA VIDAS - é assim que acho que um verdadeiro activista deve ser - uma vez que grande parte das questões que eram expostas pelos jovens eram preocupações que um dia tive e não tinha a quem questionar". Estas palavras são da activista Amélia Zawangoni, do Programa Geração Biz na Cidade de Maputo. Na primeira pessoa, Amélia conta o seu percurso:

"Chamo-me Amélia Olga André Zawangoni. Nasci na província de Nampula, a 6 de Maio. Sou a terceira dos quatro filhos de um casal de professores. Somos duas raparigas e dois rapazes.

Felizmente, passei bem a infância. O pouco que os meus pais ganhavam dando aulas era suficiente para nos proporcionar uma vida digna.

Vivi em Nampula até 1989, ano em que viemos morar em Maputo, na sequência da transferência do meu pai.

Os meus primeiros passos da vida escolar foram aqui dados. A minha primeira vez que sentei numa sala de aulas para aprender a ler e a escrever foi, em 1990, na Escola Primária Completa Casa de Educação da Munhuana. Devo aqui referir que desde o ano passado esta escola faz parte da faz parte da família "Biz".

"Grande parte do que aprendi também serviu para mim"

Dei os meus primeiros passos na vida associativa em 1999, quando fui convidada por um professor na Escola Secundária Estrela Vermelha para participar da primeira formação de activistas que seria feita pela Organização da Juventude Moçambicana.,

No ano 2000 entrei para o "Ntiyiso", um grupo de dança, canto e teatro, no qual usávamos a arte para sensibilizar a comunidade sobre diversos temas sociais, incluindo a sexualidade. Fazíamos espectáculos nas escolas, centros culturais e hospitais.

Fazendo parte deste grupo, fui convidada para trabalhar como activista no SAAJ (Serviço Amigo do Adolescente e Jovem) do Jovial, no Centro de Saúde Santa Filomena, no bairro do Alto Maé. Tendo aceite o convite, fui formada em Saúde Sexual e Reprodutiva pela Direcção de Saúde da Cidade. Essa formação era parte das actividades do Programa Geração Biz (PGB). Senti-me privilegiada por fazer parte do grupo dos jovens em formação, porque estando na fase da adolescência, grande parte do que aprendi também serviu para mim.

Após iniciar as actividades no SAAJ, fui me apaixonando cada vez mais pela sensibilização. Sentia-me uma SALVA VIDAS - é assim que acho que um verdadeiro activista deve ser - uma vez que grande parte das questões que eram expostas pelos jovens eram preocupações que um dia tive e não tinha a quem questionar.  Sentia-me orgulhosa por ajudar a esclarecer tais questões.

Devo também referir que desde o início sinto que o meu trabalho é reconhecido. Na rua, por exemplo, algumas pessoas mandam troças como GATV, Preservativo ou Moça Biz, mas a maioria fala bem do que faço. Isso é mais importante. 

No início de 2003, participei num encontro de activistas na AMODEFA (Associação Moçambicana para o Desenvolvimento da Família). Nessa altura, os encontros ainda não tinham a designação de "Parlamento" ou "Terça Biz", porém decorriam nas 3ª e 5ª feiras. A dinâmica do trabalho na AMODEFA era outra - havia muita gente, mais troca de impressões. Esse encontro marcou a minha vida de activista.

A partir desse encontro, passei a participar em todos os eventos da AMODEFA. No início foi difícil me definir como "dentro" ou "fora de escola". Participava em todos os encontro - tanto de activistas comunitários como dos escolares.

No mesmo ano tive o privilégio de participar no 1º Acampamento Nacional da Juventude, que teve lugar na província de Tete, em Agosto. Houve muita troca de experiência. Foi possível perceber a dinâmica do PGB nas outras províncias. Desse encontro, nós representantes da província de Maputo "importamos" o grito "AMIGOS DJÊ", trazido pelos colegas activistas do PGB de Zambézia. Devo aqui frisar que esse grito foi criado pelo activista Racá, nessa altura baseado em Morrumbala, na Zambézia.

O ano de 2003 foi de glórias na minha vida associativa, pois o facto de não ter conseguido ingressar na Universidade, deu-me mais tempo e decidi dedicar-me de corpo e alma ao trabalho que ja vinha fazendo, e procurando faze-lo sempre cada vez melhor. O que mais me engrandecia era ouvir o "obrigado" de um jovem, e sentir que ajudei alguém. Em pouco tempo passei de simples activista para Coordenadora - adjunta do SAAJ-Jovial, função que exerci até o ano de 2006.

Sem me aperceber fui passando cada vez mais tempo na AMODEFA em relação ao Jovial, e até hoje cá estou. Nesta organização, tive também passei de activista para coordenadora do PGB, em 2007.

"Convencer o meu pai não foi fácil"

Ser activista não foi sempre fácil. Ficava muitas horas fora de casa e era complicado convencer que estava no trabalho de sensibilização, porque isso não dava rendimento monetário. Com o tempo, em casa foram percebendo que de facto ficava ocupado na sensibilização. Ajudou a mudar a atitude do pessoal de casa o facto de eu ter começado a "palestrar"mesmo para eles.

De todos, a pessoa que foi mais difícil convencer foi o meu pai - não pelas horas que voltava, mas pelo trabalho que eu fazia.

Um dia, por exemplo, o meu pai encontrou um preservativo aberto na mesa, que por descuido deixei depois de fazer uma demonstração para minha irmã, e logo chamou-me e disse: "É isto que a senhora vai aprender lá onde diz que está a trabalhar?" Quando tentei explicar não me deixou terminar. "Essas teorias que andas a aprender lá não funcionam aqui em casa", disse aos berros.

Optei pelo diálogo, tal como aprendi como activista do PGB, e aos poucos convenci ao meu pai que o meu trabalho é importante e não promove qualquer promiscuidade. Hoje ele apoia-me bastante, e encaminha qualquer coisa relativa à Saúde Reprodutiva, HIV e SIDA para mim. Sempre solicita actualização sobre essas matérias.

"O meu curso não atrapalhou o activismo"

Em  2005, finalmente consegui entrar para a Faculdade de Economia da Universidade Eduardo Mondlane, para o curso que tanto queria: Gestão. Terminei a parte curricular do curso em 2008, e com sucesso.

A partir do 2º semestre do 4º ano do curso beneficiei de uma bolsa de estudos oferecida pelo UNFPA. Ganhei a bolsa no meio de várias candidaturas e senti-me bastante honrada.

Muitos têm dito que é impossível conciliar a vida académica, em particular o ensino superior, com a vida associativa. Sou de opinião que o segredo é saber planear. Se calhar isso tem a ver com a natureza do meu curso ou com a minha experiência como activista. Como activistas aprendemos a planificar e na escola ganhamos mais técnicas de fazer isso.

O meu curso não atrapalhou o activismo. O activismo também não complicou o meu curso. No meu entender, ser activista está dentro das acções e atitudes de cada um de nós, não se trata de um momento apenas".

Desafios dos activistas e do PGB na minha óptica

  • A presença e permanência das raparigas no programa

  • Dar maior visibilidade ao programa

  • Intensificar a interiorização do Programa nos novos activistas

  • Reconhecer publicamente aos activistas de destaque

Marcos importantes da minha trajectória

  • 2004 - Eleita vice-presidente do Movimento de Acção Juvenil na AMODEFA

  • 2005 - Representante dos voluntários da UNICEF Moçambique em Frankfurt, Alemanha

  • 2006 - Representante do Young Women Leadership and Knowledge Institute em Moçambique

  • 2007 - Responsável pela área dos direitos sexuais e reprodutivos da AWOMI e Membro do Board - Organização Feminista Senegalesa;

  • 2008 - Promotora da Estratégia Bancadas Femininas na AMODEFA

  • 2008 - Ponto focal para os assuntos da criança em situação de emergência - Save the Children

  • 2009 - Monitora da Cadeira de Marketing na UEM - Faculdade de Economia